segunda-feira, 4 de junho de 2012

Economia da Cultura - Resenha

Olá amigos. Apresento minha resenha sobre o livro "Economia da Cultura".


Aspectos conceituais e metodológicos de uma abordagem econômica da insdústria cultural – José Osvaldo Guimarães Lasmar

Neylson J. B. F. Crepalde

O autor inicia o texto problematizando a questão da abordagem das manifestações culturais. Segundo Lasmar, apesar das dificuldades, essas manifestações culturais devem ser examinadas e trabalhadas no seu aspecto econômico. A literatura sobre o assunto é escassa e a abordagem, segundo nos conta o autor no final do capítulo, é tendenciosa de modo que faz juízo de valores ao invés de apenas analisar a realidade.

O autor segue apresentando o conceito de industrialização da cultura, dos produtos culturais, e a hierarquização da cultura com a divisão entre “cultura superior” e “cultura inferior”. Lasmar aponta ainda a maleabilidade dos produtos culturais e ainda que esses produtos são construídos socialmente conforme os demais produtos do capitalismo. A saber, os produtos sofrem os efeitos e ao mesmo tempo influenciam a formação social além de serem produzidos em série através da divisão social do trabalho para consumo em larga escala. Ao produto deste fenômeno de industrialização da cultura, Edgar Morin chama de “terceira cultura, oriunda do cinema, da televisão, do rádio e da imprensa, que se desenvolve ao lado das culturas clássicas (religiosas e humanistas) e nacionais” (apud LASMAR, 1988, p. 14). O estudo da economia da cultura requer, desse modo, um olhar na dinâmica interna da indústria cultural.

Lasmar divide a indústria cultural em “indústrias de informação” e “indústrias de mensagem”. As indústrias de informação seriam caracterizadas pelos seus produtos altamente perecíveis, pela concentração e concorrência em mercados duplos (mercado de consumidores primários, leitores, ouvintes e espectadores, e mercado de consumidores secundários, os anunciantes) e pelas diversas barreiras ao ingresso. Já as indústrias de mensagem seriam as indústrias dos livros, fonográfica e cinematográfica. Nesses casos, os produtos culturais seriam analisados nas suas fases de criação, edição-reprodução, reprodução-fabricação, distribuição e comercialização.

Sobre as dimensões econômicas da produção cultural de massa, Lasmar aponta que a indústria cultural funciona no “modelo de crescimento econômico baseado na expansão de bens de consumo duráveis” (LASMAR, 1988, p. 21). Além disso, indica duas funções básicas da indústria: “ampliar o mercado de bens de consumo e fazer passar como universais os valores das classes dominantes” (ibidem). Para cumprir esta função, a indústria cultural “se orienta por critérios de lucratividade, destinando sua produção às camadas de maior poder aquisitivo” (ibidem).

Lasmar defende a atuação da indústria cultural declarando que a mesma “potencia a acumulação de capital, sobretudo no departamento produtor de bens de consumo” (LASMAR, 1988, p. 22). Ele define cultura industrializada como a produção cultural organizada e gerida de acordo com as leis gerais de mercado (produção e circulação de mercadorias).

Não obstante, é partindo do caráter empresarial, ou, se preferir, capitalista, da produção cultural de massa que se pode compreender por que a função primeira da indústria cultural no capitalismo contemporâneo não é a de alargar mercados para a indústria de bens de consumo, mas sim, contituir, ela própria, uma frente de acumulação e valorização do capital. Os rumos da indústria cultural brasileira só podem ser precisados a partir dessa constatação. (LASMAR, 1988, p. 23)

O autor expõe a indústria cultural como uma economia independente e autônoma, não agindo em suporte a produtos diversos, mas tendo uma movimentação econômica própria e bastante expressiva. A partir da segunda metade dos anos 60, a televisão integra, comenta Lasmar, o conjunto da indústria cultural brasileira conferindo-lhe a unidade que hoje apresenta.

O autor considera a função ideológica de universalizar os valores das classes sociais hegemônicas por causa das implicações decorrentes nos países periféricos. Do contrário, para o autor, essa questão não teria para nós interesse. Ele aponta que a indústria cultural é “instrumentalizada como veículo de dominação pelo capitalismo central” (LASMAR, 1988, p. 24) sobre os países periféricos. Entretanto, Lasmar argumenta que existe aí uma contradição, visto que,

De outro modo não se poderia esperar que a indústria cultural se engajasse na publicação e venda da obra de Marx e Lenin em bancas de jornais, ou ainda, que fosse possível a associação com capitais estrageiros da indústria cinematográfica para produção e distribuição de filmes nacionais de conteúdo marcadamente político e social. (LASMAR, 1988, p. 25)

Sobre a concentração do capital na indústria cultural, Lasmar aponta que se deve às condições técnicas de produção que integram o setor e às “possibilidades crescentes de transformação da indústria cultural em espaço de investimentos” (LASMAR, 1988, p. 26).

Na indústria cultural brasileira são apontados mercados supostamente restritos. O autor comenta que o padrão de crescimento da indústria obedece à logica do modelo excludente e concentrador de renda da produção de bens de consumo duráveis. Lasmar comenta que, dos anos 30 até os anos 50, os setores que guiavam a economia brasileira eram o setor de bens de consumo assalariado e o setor leve de bens de produção. Já a partir dos anos 50, há uma transição em que as políticas desenvolvimentistas estabelecerão um novo padrão de acumulação movido pelos produtos de bens de capital e bens de consumo duráveis.

A ruptura do “modelo articulado de desenvolvimento”, a implantação de um padrão de crescimento baseado na produção de bens de consumo duráveis, na concentração de renda e na internacionalização da economia, integram, portanto, uma mesma trama. (LASMAR, 1988, p. 29)

Lasmar interpreta características fundamentais da indústria cultural em comparação com o modelo de crescimento dos bens duráveis de consumo de modo que “a perversa estrutura de distribuição de renda seria funcional e compatível com a ‘elitização’ da produção cultural no Brasil” (ibidem). Esse modelo também privilegia a dependência tecnológica e a importação de produtos culturais e associa-se a uma internacionalização da cultura brasileira.

O autor critica o estudo dos problemas relacionados à organização e evolução dos mercados culturais por terem sido tratados de forma imediatista. Para Lasmar, o desenvolvimento da indústria cultural será balizado pelas possibilidades reais de acesso das diversas classes sociais à fruição dos bens culturais.

Lasmar aponta que a função ideológica (citada supra) da indústria cultural tem sido considerada com maior ênfase em detrimento de suas implicações de dependência econômica em países periféricos. Para o autor, o produto cria o consumidor, cria a sua própria demanda e seu próprio mercado fabricando culturas para consumirem bens e serviços. Lasmar cita o exemplo de Hollywood como exportador de produtos americanos e declara que essa exportação se dá mediante duas condições: “a preservação da dependência [e] a instalação, na sociedade receptora, de uma demanda artificial voltada para o consumo de bens e serviços elaborados no exterior” (LASMAR, 1988, p. 33). Contudo, somente essa abordagem é insuficiente para o autor porque simplificaria as diversas formas de inserção de países periféricos na economia internacional e ainda “porque estamos menos interessados nas funções de dominação exercidas pela cultura de massa no âmbito das relações centro-periferia do que nos constrangimentos impostos pela situação de dependência ao pleno desenvolvimento da indústria cultural brasileira” (ibidem). Este desenvolvimento depende de alguns fatores de crescimento como a consolidação de uma base técnico-científica, maior articulação interna do seu aparelho produtivo e a formação de um grande mercado consumidor.

Sobre a integração do Brasil no mercado econômico cultural internacional, Lasmar comenta que esta acontece de duas formas: a primeira seria a integração de tipo comercial que faz do Brasil um mercado consumidor de produtos elaborados nos países centrais. A segunda seria a integração de tipo produtiva, consistente na produção interna de determinados produtos culturais.

Lasmar aponta a importância da comunicação de massa e das indústrias culturais na construção de políticas culturais:

Por se tratar de um fenômeno até então relativamente recente, ou por terem sido quase sempre abordados a partir de rígidas posturas ideológicas mais preocupadas em condená-los do que em analisá-los, a importância dos meios de comunicação de massa e das indústrias culturais na construção das políticas culturais não pode ser percebida de imediato. Entre as primeiras reações “nacionalistas” e as experiências atuais de planejamento da produção cultural de massa, as intervenções públicas no setor estiveram permeadas por medidas simplesmente “reativas” face à constatação de problemas crescentes na produção e na realização dos produtos culturais nacionais. A perda de mercado pelos produtores locais responde-se com mais subsídios à produção ou ao consumo dos bens culturais, atingindo-se, em alguns casos, até mesmo a estatização pura e simples da sua produção, da sua distribuição ou do seu financiamento. (LASMAR, 1988, p. 38)

Para o autor, as análises da funcionalidade da indústria cultural no crescimento do país parecem desconsiderar qualquer tipo de intervenção pública. Estas intervenções seriam necessárias, ao contrário do que comumente se espera do Estado: que apenas financie e policie. Sobre essa questão, Lasmar aponta dois aspectos: primeiro, o fato de que produtividade econômica e “produtividade política” andam no seio das indústrias culturais de maneira contraditória. Segundo, que a indústria cultural caminhará para sua autonomia de acordo com o aumento das possibilidades de consolidar seus mercados e deles apenas depender para operar e crescer.

Concluindo, Lasmar defende que, pela força e expressividade econômica que tem, a indústria cultural não pode ser mais ignorada devendo ser considerado o seu papel e o seu lugar na construção de políticas culturais. O autor declara ainda que já não são mais cabíveis as caracterizações redutivas feitas pela Escola de Frankfurt.

REFERÊNCIAS
LASMAR, José Osvaldo Guimarães. Aspectos conceituais e metodológicos de uma abordagem econômica da indústria cultural. In: FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Economia da Cultura: reflexões sobre as indústrias culturais no Brasil. Brasília, Instituto de Promoção Cultural/Secretaria de Apoio à Produção Cultural – Ministério da Cultura. 1988, 69p.


Neylson J. B. F. Crepalde é graduado em Regência pela UFMG (2010) e especializando em Gestão Cultural pelo Centro Universitário UNA (Belo Horizonte, MG). Apresentou-se como maestro convidado com a Orquestra Sinfônica de MG em 2010 na série Concertos no Parque. Apresentou-se no concerto de encerramento do I Laboratório de Regência da Orquestra Filarmônica de MG em 2009. Apresentou à frente da Orquestra sinfônica de Barra Mansa em concerto na Igreja da Sé em Olinda, PE em 2010. Atualmente é professor substituto da Escola de Música da UFMG na área de Regência.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sobre a Rede de Amigos do Baleia


(Trabalho que escrevi sobre esta rede interessantíssima)

Não é raro percebermos hospitais da rede pública enfrentando problemas de toda ordem: falta de recursos financeiros, falta de espaço, falta de equipamentos adequados aos procedimentos médicos, excesso de pacientes esperando atendimento. Por vários motivos, a administração desses hospitais opta por não aguardar as medidas estatais que, por vezes, é bastante demorada. Nesse contexto, unindo necessidade e criatividade, nasceu a rede de Amigos do Hospital da Baleia.

Criada há quase 30 anos, a Rede de Amigos do Hospital da Baleia é uma verdadeira corrente de solidariedade, que acredita e pratica valores como cidadania e humanização. Conta com vários parceiros em suas mais variadas formas, desde grandes empresas até iniciativas de grupos ou voluntários individuais. Cada um doa o que pode: dinheiro, tempo, carinho, amor...[i]

A rede se propõe como grupo de apoio ao hospital e a seus pacientes. Através de campanhas, o trabalho empreendido arrecada recursos financeiros, material hospitalar e ainda serviços de todo tipo. Além disso, a rede investe em ações de humanização voluntárias. Solidariedade, fraternidade, voluntariado, cidadania e responsabilidade social são alguns dos valores destacados pelo grupo.
FIGURA 1[ii]

A rede tem os mais variados parceiros: bancos, empresas de energia elétrica, concessionárias, mineradoras, empresas de telecomunicações, farmácias e supermercados. Os empresários tem como contrapartida sua marca no site do hospital além de “regalias” como uma mesa na noite de gala, o “Jantar dos Amigos do Baleia”. Este jantar é uma das possibilidades de interação entre os participantes mais ativos das campanhas.

Por ser uma celebração de solidariedade, o evento é sempre realizado em um ambiente de muita alegria e descontração, estimulando todos a contribuir com o desafio de manter a plenitude do funcionamento hospitalar. […] Depois do grande sucesso de suas primeiras edições, o Jantar dos Amigos do Baleia integrou-se plenamente ao calendário social de Belo Horizonte. Acreditamos que as pessoas e organizações que fazem parte do evento são aquelas que levam consigo o ideal da solidariedade e de responsabilidade social.[iii]

Chegando a contar com a presença de artistas de renome internacional, o evento parece ser destinado a empresários e maiores colaboradores. Apesar da eficácia da ação, é preciso salientar que esse caráter capitalista e estimulante à competição (quanto maior o investimento, maior a visibilidade) contrasta com os valores apregoados pelo grupo.

Há ainda o bazar da Rede de Amigos onde “funcionários e pacientes podem encontrar, a preços reduzidos, roupas de uso pessoal, de cama, mesa e banho, eletrônicos, eletrodomésticos, móveis e brinquedos” (Site do Hospital da Baleia[iv]). Toda a arrecadação do bazar é investida na melhoria de serviços do hospital.

Uma das mais famosas campanhas da rede é a campanha “Doe seu Troco” empreendida em parceria com a Drogaria Araújo desde janeiro de 2005. Em sete anos já foram arrecadados cerca de R$ 7.000.000 (sete milhões de reais) investidos na amplicação das CTI´s.

FIGURA 2[v]

Recentemente foi criada a rede de voluntariado digital “Amigos do Baleia”. Semelhante a outras redes sociais digitais (facebook, orkut), esta rede facilita o ingresso de novos membros na ações empreendidas pela rede além de viabilizar a circulação de informações horizontalizando as mediações. Para conhecimento (e possíveis atuações) ingressei nesta rede e logo fui recebido com uma saudação da administradora da rede, a senhorita Angelina Zanandrez[vi]. Fiz o meu perfil com todas as minhas informações pessoais, adicionei uma foto e comecei e observar o funcionamento das ações pelo site.

A campanha “O conforto de alguém com câncer está a um clique!” está aberta desde 02/05/2012 terminando no dia 31/05/2012 e visa a aquisição de três das vinte e três cadeiras apropriadas para quimioterapia que precisam ser substituídas. A meta de arrecadação é R$ 10.000,00 (dez mil reais) dos quais já foram arrecadados R$ 3.054,00 (três mil e cinquenta e quatro reais)[vii]. Há três formas de participar: fazendo uma doação em dinheiro, arrecadando doadores para a campanha ou fazendo a divulgação em redes sociais. Quando é acessada a opção de tornar-se empreendedor da campanha, são criadas metas pessoais as quais, quando cumpridas, rendem ao participante “medalhas virtuais” pelo mérito além de pontuação para o “ranking dos participantes”. Além disso, a cada ação feita o participante recebe “dádivas” (moeda virtual criada para o site) que poderão ser trocadas por produtos da rede como camisas ou agendas.

Devido ao tipo de mediação usada pela rede (virtual digital), as informações são publicadas de modo a deixar transparentes os resultados obtidos até o momento na campanha evitando suspeitas de corrupção e legitimando o trabalho empreendido. Além disso, o processo dá margem a ações difusas (SCHLITHLER, s/d) visto que os participantes são estimulados pela “concorrência do ranking” a agirem de forma autônoma. Proporcionando espaço para discussão de ideias e interação entre os participantes, a rede também acaba se tornando espaço para a diversidade, visto que qualquer pessoa pode se tornar um “Amigo do Baleia”. Só não há mais interculturalidade pelo risco de perder o foco: a imprescindível ajuda ao hospital. As demais interações culturais e trocas de experiências ficam por conta dos encontros dos “Amigos”.

REFERÊNCIAS
SCHLITHLER, Célia. Gestão de Redes Sociais. Disponível em http://www.idis.org.br/biblioteca/artigos/gestao_de_redes_celia_schlithler.pdf/view Acesso em 20/05/2012

Site do Hospital da Baleia. Disponível em www.hospitaldabaleia.org.br Acesso em 20/05/2012

Site Amigos do Baleia. Disponível em www.amigosdobaleia.org.br Acesso em 20/05/2012

sábado, 12 de maio de 2012

Sobre o próprio umbigo

"O deus deles é o próprio ventre..." (Paulo de Tarso)

Tenho ficado inevitavelmente decepcionado com atitudes de alguns "amigos" que supostamente tem uma conduta ilibada, atitude altruísta e valores inquestionáveis... Como já era de se esperar, pessoas que julgávamos nossos amigos tendo o mínimo de consideração carinho e respeito se mostraram biltres idólatras do próprio umbigo, preocupados apenas com seus próprios interesses e opiniões. Que pena. Não escrevo com revolta, antes, com profundo pesar...

Infelizmente, por trás de uma fachada de "bom samaritano", às vezes existe uma personalidade em decomposição. Morta. Vazia em si mesma.

Não quero parecer aqui hipócrita pintando o mundo de vermelho e meu rosto de branco. Não! Reconheço que enquanto seres humanos somos falhos e carentes da misericórdia do Altíssimo em nossas vidas, do contrário já estaríamos todos consumidos (torrados, esturricados). Digo que gostaria que não tentássemos parecer o que não somos. Que fôssemos honestos, sinceros. Mais autênticos.

Talvez um pouco de atenção a questões fora da nossa esfera imediata também não fariam mal. A situação das políticas públicas na cultura, por exemplo... A faculdade do pensamento crítico... O bom e velho (porém nunca antiquado) amor ao próximo. Mas não um amor ao próximo distante e frio. Um amor de atitudes que fazem alguma diferença, que constroem alguma coisa...

Enfim...

Neylson Crepalde

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sobre Linguagem e Comunicação II

Continuando as investigações a respeito de linguagem, tomei conhecimento de algumas ideias trabalhadas pelo linguista e filósofo americano Noam CHOMSKY, famoso também por seu ativismo político (algo que espero poder comentar neste blog).

Em seu ensaio "Novos horizontes no estudo da linguagem e da mente" CHOMSKY apresenta a abordagem linguística dos princípios e parâmetros, a qual ele compara com uma rede fixa conectada a um quadro de interruptores. "A rede é constituída dos princípios da linguagem, enquanto os interruptores são as opções a ser determinadas pela experiência" (CHOMSKY, 2005, p. 37). Quando o conjunto de interruptores é acionado de uma determinada maneira, é possível expressar-se em inglês, quando em outra, em francês, em português, etc. Os conceitos, os enunciados a serem expressos tomam forma através dos diferentes conjuntos de parâmetros (interruptores).

Apesar dessa abordagem ter sua atenção voltada para o estudo linguístico, sobretudo o aprendizado de novas línguas, é possível traçar um paralelo interessante com a "linguagem artística". Os enunciados, os conteúdos a serem expressos se dariam  através da utilização de diferentes parâmetros expressivos artísticos: som, imagem, até mesmo palavras (quando considerados na sua forma subjetiva e não positiva). Seriam as diversas "línguas (ou linguagens) artísticas".

Mas antes, é preciso traçar um paralelo mais sólido entre a música e a linguagem para saber se é possível, afinal, considerarmos música como linguagem, como um tipo de linguagem ou não.

O filósofo mostra que a faculdade da linguagem está inserida em uma arquitetura mais ampla da mente/cérebro. Ela interage com outros sistemas que sejam capazes de "ler" as expressões da linguagem e usá-las como diretriz para o pensamento e a ação. Os sistemas sensoriais e motores, por exemplo, precisam ser capazes de ler as instruções relacionadas ao som, ou às representações fonéticas da linguagem. Da mesma forma, quando (re)conhecemos alguma obra musical, nossos sistemas sensorial e motor entram em ação na percepção dos estímulos sonoros mas com uma diferença conceitual: na linguagem, os signos, os fonemas são apenas os parâmetros, as ferramentas na construção da linguagem responsável por comunicar uma ideia ou expressar um conceito. Na música, é bastante difícil estabelecermos uma "finalidade" para os signos sonoros musicais: se funcionam em torno de uma significância extramusical (como no caso dos poemas sinfônicos, por exemplo) ou se o material sonoro é um fim em si mesmo. Como poderíamos pensar em um "discurso musical" (conceito já conhecido e amplamente pesquisado nas áreas de retórica musical e semiologia)?

Surgem aí dois problemas: O primeiro consiste na impossibilidade da música de comunicar algo desde que seus signos sonoros não possuem significados definidos. A interpretação musical se dá num nível abstrato e subjetivo, portanto, indireto. A música não teria, dessa forma, comunicação eficaz, mas teria diálogo assumindo que estruturas musicais podem carregar enunciados que dialogam com as demais vozes responsivas ativas. O segundo é que para reconhecer estruturas fraseológicas musicais, é necessário que o ouvinte seja "educado musicalmente", tenha conhecimentos teóricos sobre melodia, harmonia, motivo, material temático, etc. Em contrapartida, as estruturas semânticas são compreendidas, em grande parte, sem uma educação acadêmica direcionada. Uma criança brasileira de 10 anos pode compreender bem um vasto repertório de frases e palavras sem que tenha feito um estudo sistemático preliminar na área. A linguagem é uma faculdade inerente ao ser humano (CHOMSKY, 2005; CHAUÍ, 2000).

Em outra ocasião, continuarei o pensamento a esse respeito (tendo uma relativa ideia do tamanho do poço onde estamos entrando...)

Outra questão interessante apontada por CHOMSKY é a ambiguidade intrínseca no significado. "Suponhamos que uma biblioteca tenha duas cópias do Guerra e Paz de Tolstói e que Peter retire uma delas e John a outra. Peter e John retiraram o mesmo livro ou livros diferentes" (CHOSMKY, 2005, p. 48-9)? À primeira vista, uma pergunta falsamente simples, uma pergunta capciosa porque se levarmos em conta o fator material do item lexical (o objeto "livro") retiraram livros diferentes. Se focalizarmos o componente abstrato, o conteúdo, levaram o mesmo livro. Pensando em música, mais uma vez nos deparamos com a pergunta: a música traz um enunciado intrínseco ou os sons são um fim em si mesmos?

Depois continuamos com nossa busca para entender a linguagem...

Neylson Crepalde

Agradeço ao amigo Felipe Massote pela brilhante sugestão do Chomsky. Estou me deliciando com a leitura de sua obra.

Agradeço também ao amigo Maestro Arnon Sávio pela lembrança do livro do Maestro Magnani. Esta obra tem uma parte inicial interessantíssima sobre estética.

Dicas de Leitura


CHOMSKY, Noam. Novos Horizonte no estudo da linguagem e da mente. Tradução Marco Antônio Sant´Anna. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000. Disponível em http://www.fag.edu.br/professores/bau/FAG%202012/Fonoudiologia%20Filosofia/Livro%20Convite%20A%20FILOSOFIA%20CHAUI.pdf

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sobre Linguagem e Comunicação

Me senti instigado a pensar e pesquisar um pouco sobre a linguagem.

Visto que o homem tem uma necessidade inerente de se organizar em uma sociedade, a principal conexão entre eles seria a linguagem. O que é a linguagem?

Em seu livro "Convite à Filosofia", Marilena CHAUI cita uma declaração do linguista Hjelmslev que afirma que "a linguagem é inseparável do ser humano, segue-o em todos os seus atos" sendo "o instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças  ao qual ele influencia e é influenciado, a base mais profunda da sociedade humana.” Hjelmslev diz ainda que a linguagem é "o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta contra a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador".

Linguagem pressupõe comunicação. Diferente de expressão [inclusive, esta é uma das grandes dificuldades para aceitarmos a música entre outras artes como linguagem]. Das várias ideias e pensamentos que temos, surge uma necessidade de expressão, colocar para fora. Outra coisa é essa ideia expressa de alguma forma [texto, sons, imagens] comunicar algo a alguém e obter uma resposta ativa, dialogando com seu ouvinte ou espectador. Uma imagem, uma foto certamente é uma forma de expressão. Mas é uma forma de comunicação efetiva?

Segundo o filósofo russo Mikhail BAKHTIN, todo o enunciado, ou seja, toda unidade real de comunicação é social porque é voz de um indivíduo ou grupo inserido num contexto social. Dessa forma, qualquer enunciando dialoga com os outros enunciados existentes sobre o assunto. É uma relação de sentidos entre enunciados. Entre ENUNCIADOS, não entre textos. Da mesma forma que um texto pode conter um enunciado, uma imagem, uma obra musical podem conter enunciados que dialogam com o ouvinte ou espectador mesmo não contendo texto literário.


Como uma imagem artística poderia comunicar sabendo que apesar de não possuir signos de significância real, possui uma VOZ social, um enunciado por ser uma forma de expressão?


Em outra ocasião continuarei a busca pela compreensão do que seja linguagem...

Neylson Crepalde

PS: Amigos linguistas, estudiosos de comunicação, letras, música, artes em geral, interessados, simpatizantes e curiosos: Sintam-se à vontade para comentar!!!

Recomendo seríssimamente a leitura:

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000. Disponível em http://www.fag.edu.br/professores/bau/FAG%202012/Fonoudiologia%20Filosofia/Livro%20Convite%20A%20FILOSOFIA%20CHAUI.pdf

FIORIN, José Luiz. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Ática, 2006. 144 p.

SEIBERT, Carla Jean. A performance musical como interação: dialogismo, significados e sucesso. 2010. 110 f. Dissertação (Mestrado). Escola de Música da UFMG, Belo Horizonte, MG. Disponível em http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/AAGS-8ADFR4

terça-feira, 1 de maio de 2012

Ter Amigos X Ter Companheiros

Cheguei ao fim do dia de ontem justamente com esta reflexão...

Antes de qualquer outra coisa, é inevitável comentar que o principal divisor de águas em minha vida foi o dia em que me decidi por andar nos passos de Jesus de Nazaré (ou pelo menos me esforçar ao máximo tentando...) Realmente é um estilo de vida incrível e cheio de surpresas interessantes as quais não vamos comentar hoje! Assunto para outro dia...

De qualquer forma, quando se toma uma decisão a ponto de mudar todo um estilo de vida, logicamente todo o seu meio vai reagir dialogicamente (outro assunto interessantíssimo para outro dia...) a esta decisão das mais diversas formas possíveis. São nesses casos em que conhecemos o mais profundo da psiquê humana: raiva, simpatia, indiferença, compreensão, crítica, ironia, falsidade, cumplicidade... enfim uma vitamina de respostas emocionais à sua nova conduta. Este também é o momento propício para discernir entre os seus amigos e os seus companheiros.

Ora, companheiros são companhias agradabilíssimas para qualquer momento em que você esteja emocionalmente estável ou economicamente ascendente (na boa...). São excelentes parceiros para fazer nada e inclusive bons incentivadores ao prescindível. Mentirosos profissionais: dizem tudo o que gostaríamos de ouvir com requintes de ironia. A cervejinha do fim de semana não seria a mesma sem esses pilares da vida improdutiva...

(Talvez eu esteja pegando um pouquinho pesado.......    Talvez não.....)

Já amigos são extremamente desagradáveis e frustantes no tocante a tomar decisões deliciosamente erradas. Demonstram indiferença ao fenômeno econômico bombástico acontecendo em nossa conta bancária (seja ganhar na mega-sena, seja a bancarrota). São péssimos companheiros para fazer nada. Só gostam de coisas produtivas. E como se não bastasse, são inconvenientes! Nunca dizem o que gostaríamos, mas o que precisamos ouvir. Que infâmia! Que audácia!

Essas pessoas terríveis, os amigos, são os responsáveis (pelo menos em boa parte) pela nossa sanidade mental e evitam muitas de nossas bobagens...

Inevitável também a pergunta: Quem são meus amigos?
Ou pior ainda: Quantos amigos você tem? E quantos companheiros? (Assustador não?)

Neylson Crepalde

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Boa noite a todos.

Hoje estou inaugurando este projeto de blog onde derramarei sobre a humanidade desavisada as minhas reflexões, loucuras, divagações, desabafos, etc.


Parafraseando o grande livro de Agostinho, inicio esta publicação até mesmo como uma experiência. Temos a necessidade nos comunicarmos. O ser humano foi feito para viver em sociedade. Esse é o plano afinal. "E disse Deus: não é bom que o homem viva só..." A questão é justamente COM QUEM se comunicar. Neste caso, com ninguém e com todos. Interessante...

E pensando nessa questão de ter consigo as pessoas "mais adequadas" (achei que "certas" seria muito forte) para uma comunicação efetiva, coloco-me nessa maravilhosa liberdade expressiva da internet onde minhas tagarelices não tem destinatário certo... Apenas uma vaga perspectiva platônica de compreensão... (um tanto quanto dramático não...)

O que me leva à minha primeira questão: Ter amigos X ter companheiros...

Até a próxima...

Neylson Crepalde